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cenas de gaja

30
Ago05

Noite Escura

sissi
O filme desta semana chama-se Noite Escura e é dirigido por João Canijo, o meu realizador português favorito. Não vou fazer o panegírico técnico do filme, que merece todos os meus elogios, nem salientar a qualidade dramática dos actores, que formam o melhor casting da cinematografia lusa dos últimos anos. E não vou fazê-lo porque para os, certamente poucos, que ainda não viram a película, lhes vai retirar prazer o retrato que por mais adjectivado que seja será sempre pouco para descrevê-lo.
Prefiro falar do que mais me emocionou na história, e que sempre me toca em tudo o que vejo, leio ou ouço: os afectos. Nesta caso, a ausência deles. A vida destas pessoas não cabe nas definições comuns de família. Elas são, aliás, a prova que família e parentes são entidades autónomas, que só se ligam pela vontade de cada um em cruzar caminhos. Naquela família, ser pai de uma filha ou ser filha de um pai não implica que não se possa fazer o mesmo que um pai faz a uma mãe, que a mãe faz a um pai que faz a outra filha que faz a si própria. E nesta história temos de tudo. Sobretudo o olhar baço e vidrado das personagens (magistralmente interpretadas e filmadas, nunca é demais dizer), e a dureza de uma realidade que todos sabemos existir, mas que nos esforçamos por não olhar, como quem sacode o pó para debaixo do tapete para as visitas não verem. Este filme fala disso também. Da aparência. Do olhar para o lado, da permissividade que julgamos ser dos outros mas é de nós mesmos, que o somos também. Porque nos permitimos viver em condições muito abaixo do limite inferior dos nossos sonhos, numa deliquescência do viver quotidiano. Morremos, mas o nosso coração bate. Morremos, mas continuamos a viver. E são assim as personagens deste filme. Estão mortas, secas, abúlicas, com excrecências várias que os entopem e, cruelmente, os fazem morrer por dentro.
Dói tanto mais ver este filme conquanto sabemos que ele é bem real.

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