Um homem. Uma mulher. Jantam numa varanda sobre Lisboa. Bebem um tinto, fumam uma ervazita jeitosa e falam sobre si próprios enquanto o Tejo os embala numa brisa quente e suave. Toda a Motown toca no rádio. O ambiente oscila entre a nostalgia da conversa e o riso potenciado pelo psicotrópico.
Ele – Já te curaste do Rapaz?
Ela – E tu? Já te curaste da Rapariga?
Ele – Está quase...e tu?
Ela – Está quase também...
Ele – Não queres falar nesse assunto? Ainda dói?
Ela – Não, já não dói. Mas depois da dor fica uma espécie de terreno não arável que impede o nascimento de qualquer forma de sentir...Qué será, será.
Ele – Eu agora gosto de estar sozinho.
Ela – Então estamos em sintonia.
Ele – Mas já dei por mim a dar quecas com tipas só para ver se me apetece ficar com alguma delas mais do que o estritamente necessário.
Ela – Eu quando dou quecas com tipos nem penso nisso.
Ele – Como assim? Mas nem te passa pela cabeça?
Ela – Não. Como deves calcular, não estou ali com o tipo a pensar se é a pessoa certa para mim ou não. De resto, o que é a pessoa certa?
Ele – Quando tiver 90 anos respondo-te. Se estiver alguém comigo nessa altura é porque foi essa a pessoa certa.
Ela – Gostava de conseguir ser pragmática como tu. Mas ultimamente tenho pensado no que quero numa pessoa e apercebi-me que as minhas premissas mudaram um pouco nos últimos anos. É normal não é?
Ele – E o que é que queres?
Ela – Alguém de quem me possa orgulhar. Que seja sobretudo meu amigo. Com quem partilhe a vida. Alguém que seja o melhor para mim e não aquela pessoa em quem tropeçei a determinada altura da vida. Que goste de mim pelo que sou, que puxe por mim, me estimule, me faça ser ainda mais e melhor. Que aceite as minhas loucuras, as minhas inseguranças, mas que não se deixe inferiorizar quando estou em alta e me apetece brilhar. Que me deixe fazê-lo brilhar. Alguém que não precisa de gostar da mesma música, ou dos mesmos filmes, mas que terá, obrigatoriamente, de partilhar pelo meus gosto pelas viagens, pela forma como gosto de as fazer, e por conhecer pessoas novas, meter conversa com elas, enriquecer-se pessoalmente através de encontros assim. Uma pessoa para quem o sexo seja um work in progress... Um campo a explorar sempre, dentro do limite dos nossos desejos. No fundo, terá que ser alguém que comprenda que uma relação implica trabalho e que não admito que me tomem como garantida. Sou como um carro de gama alta. Tenho uma manutenção cara mas sou pá vida...
Ele – Que bonita frase! Sabes que a probabilidade de encontrares tudo isso numa só pessoa é quase nula, não sabes?
Ela – Sei... Faz aí mais outra que esta não bateu...
De Lucília a 29 de Agosto de 2005 às 11:17
Pois,é pouco provável encontrar alguém assim!
Aguardando,portanto,o resultado da 2ª...
Um bom dia
De
sissi a 29 de Agosto de 2005 às 11:49
Bom dia Lucília!
Bem sei que é uma tarefa hercúlea esta de encontrar Imperador à altura, mas que fazer? Claro que há sempre uma margem de manobra relativamente a estas premissas, mas, que diabo, uma pessoa tem ficar com o que é melhor para si, ao invés de acabar com um second best apenas porque se sente sozinha. Felizmente que a minha vida não se esgota numa relação, nem em casar ou ter filhos. Mas vamos vivendo e espreitando o mercado!
Quanto à segunda...onde é que ela já está...;-)
Beijinhos!
De
T. M. a 29 de Agosto de 2005 às 13:30
"Mas, que diabo, uma pessoa tem ficar com o que é melhor para si, ao invés de acabar com um second best apenas porque se sente sozinha. Felizmente que a minha vida não se esgota numa relação, nem em casar ou ter filhos. Mas vamos vivendo e espreitando o mercado!"
Ah, finalmente alguém que pensa como eu! Embora eu "perceba/aceite" que haja quem lide de forma diferente com a questão do "estar sozinho" e do "parceiro ideal". No fundo, é sempre uma questão de saber qual é o "mínimo" pelo qual estamos dispostos a abdicar da nossa independência (mais que solidão...).
Quando "Ele" diz que quando dá umas quecas ainda pensa se elas serão elegíveis para algo mais, isso é muito masculino. Primeiro a intimidade, e depois logo se verá... já a mulher é um pouco ao contrário. Mas são tudo generalizações, claro.
Quanto ao magnífico parágrafo "Alguém de quem me possa orgulhar. (...) Sou como um carro de gama alta. Tenho uma manutenção cara mas sou pá vida...", breves comentários:
- "Alguém de quem me possa orgulhar" (...) "mas que não se deixe inferiorizar quando estou em alta e me apetece brilhar. Que me deixe fazê-lo brilha." Muito difícil porque significa que ambos terão de ser de "gamas" semelhantes, conscientes disso, e lidar com a auto-estima e a alheia de forma "construtiva". Muitooo difícil mesmo...
- "Alguém que seja o melhor para mim e não aquela pessoa em quem tropeçei a determinada altura da vida." Certo... mas a melhor pessoa é sempre alguém em quem tropeçamos, e raramente alguém que (activamente) procurmos... mas depois há a frase mágica do "2046": "De nada serve conhecer a pessoa certa antes ou depois do momento certo";
- "Alguém que não precisa de gostar da mesma música, ou dos mesmos filmes, mas que terá, obrigatoriamente, de partilhar pelo meus gosto pelas viagens, pela forma como gosto de as fazer, e por conhecer pessoas novas, meter conversa com elas, enriquecer-se pessoalmente através de encontros assim." POis. Não têm que ser iguais nos gostos mas sim nas coisas essenciais que farão juntos. A história do "os opostos straem-se" tem muito que se lhe diga. É preciso haver uma base comum de entendimento e depois diversidade q.b., sobretudo na forma de encarar a vida (rationslista / emotivo, calmo / obsessivo, etc);
- "Uma pessoa para quem o sexo seja um work in progress... Um campo a explorar sempre, dentro do limite dos nossos desejos." Uiii! Isto então é muito difícil hoje em dia. Há muito pouca gente (falo de mulheres, naturalmente...) que entenda o que é a "art of love making". A maioria das mulheres são muito passivas e pouco dadas a descobertas... mas disso falarei brevemente noutro sítio.
- finalmente (e em jeito de provocação) gosto do "alta gama, com manutenção cara"; acho que a intenção não era nada "materialista" (pelo que se lê antes) mas dá um toque muito feminino à coisa ;). Eu seria mais um jeep, pronto a desbravar todo o terreno e partir à aventura...
Good luck ;)
De Anonymous a 29 de Agosto de 2005 às 14:52
Sissi... sou eu outra vez. O Men!!!
Acho que consegui resumir o que procuras numa palavra - filho.
O que achas?
De
sissi a 29 de Agosto de 2005 às 15:40
Então Men! Tá tudo?
Um filho? Nem por isso...mas continua a mandar postais! Pode ser que te calhe a viagem a Pernes!
Beijinhos!
De
sissi a 29 de Agosto de 2005 às 15:56
Caro TM,
ora ainda bem que apareceu! Aqui no Palácio gostamos sempre de visitas novas.
Quanto ao seu comentário,que me muito apreciei, apraz-me dizer o seguinte (hoje sinto-me formal):
1 - por me considerar um carro de gama alta, não poderia escolher que não outro carro de gama alta. Porque só posso exigir aos outros aquilo que sou para mim. Na questão do brilhar ou não brilhar, estou disposta a que o outro brilhe tanto quanto eu, porque isso aumenta o meu orgulho e consequentemente o meu amor, ou vice-versa, não consigo perceber o que vem primeiro.
2 - quanto à pessoa certa, os gregos têm uma expressão, ou palavra, «kairos», que aprendi a respeitar. Significa «o seu a seu tempo», que implica esperar e ser paciente, coisas que não estão inscritas no meu código genético. Mas adquiro essas noções de forma não passiva e aguardo a minha vez na fila.
3 - a história de que os oposto se atraem é um mito urbano. Que eles se atraem não me custa a acreditar, mas que se mantenham para além da atracção é que já é mais difícil.
4 - quanto à art of love making, assunto muito querido para mim, aguardarei então o que tem a dizer em sede própria.
5 - quando falo em manutenção cara, falo na manutenção dos afectos. E essa sim, não tem preço.
Em jeito de provocação, gosto de jipes...
Obrigada e volte mais vezes!
De
Ana a 29 de Agosto de 2005 às 17:11
uhmmm não sei se fumei demais, mas acho que tenho um desses em casa... o maior erro é não acreditar que eles existem. Se não acreditamos, quando vemos um, não o sabemos reconhecer............
imagino que muita gente pense "olha mais uma parvinha apaixonada que acha que o mundo é cor de rosa..." estou-me a cagar, para esses pensamentos... e sabem porque?
porque mesmo que essa pessoa não seja nada disso, é assim que me faz sentir... e isso é exactamente a mesma coisa do que realmente ser....
ser feliz é muito simples.... ok tem dias... mas é simples...
De
sissi a 29 de Agosto de 2005 às 17:19
Cara Ana,
mais uma visitante neste ilustre palácio!
Ora, se se sente assim, é o que conta. Embora nunca se deva perder o pé entre o que se sente e o que se sabe, que são coisas completamente diferentes. Ainda assim, parabéns pelo exemplar raro!! Mantenha-o e cuide dele. E obrigue-o a cuidar de si.
Beijinhos e volte mais vezes!
De
Ana a 29 de Agosto de 2005 às 17:24
Eu venho todos os dias....
Sou fã.
Beijinho e Abraço
De
sissi a 29 de Agosto de 2005 às 17:39
Ai Ana...agora é que me caiu a coroa....xiça...olhe...muito obrigada...caraças...(corada, muito corada)...vou ali tomar as gotas...
Beijinhos e fale mais vezes!
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