Quarta-feira, 24 de Agosto de 2005
A Secretária
Ontem decidi vasculhar por entre as centenas de DVD´s que possuo, na esperança de encontrar um que ainda não tivesse visto, quando dou de caras com uma relíquia, ainda embrulhada, da qual me tinha completamente esquecido. A película chama-se «A Secretária» e nela figuram, apenas, dois dos meus actores favoritos, James Spader e Maggie Gyllenhall.
Quando terminei de o ver, questionei-me vezes sem conta porque me teria passado da memória semelhante pérola. O James Spader, injustamente ignorado pelo monstro de Hollywood, é dos tipos mais transparentes que já vi representar, de quem Sexo, Mentiras e Vídeo e Crash são exemplos de maior visibilidade. Quanto à Maggie, sem actuações dignas de registo, gosto dela porque tem uma beleza simples e serena, e me enternece o meneio elegante e olhar forte. Prefiro-a mil vezes a uma Zeta-Jones, bonita, mas sem luz interior.
A história da Secretária não tem nada de simples. James Spader é um advogado cujo único senão aparente é não conseguir manter uma secretária por muito tempo. Maggie Gyllenhall é uma mulher nos 20's, acabada de sair de uma clínica por histórico de auto-mutilação, no limiar entre o normal e o fora do mundo, que é recrutada por Spader para nova ajudante.
«You work is very dull. You just have to type and answer the phone. Type and answer the phone» - diz ele
«That´s ok. I like dull. Dull is nice» - responde ela
Estas são as premissas de uma relação que a olho nú pode parecer uma comédia, mas não é. A meio da história, percebe-se que também Spader se auto-mutila, ou auto-mutilou (fica a dúvida), nascendo daí aquilo que os ligará definitivamente. Ambos são compulsivos nos gestos, obsessivos nas ideias e obstinados nas atitudes. Uma gralha dada por Maggie ao escrever uma carta, principia um ritual com contornos sado-maso. Maggie torna-se submissa de Spader. Não têm sexo (à excepção de uma palmadita ou outra...), mas ele diz-lhe todos os dias o que comer, o que vestir, como falar, como trabalhar. E Maggie adora.
A história tem reviravoltas interessantes mas esta é a punch line da minha questão. A nós, mulheres solteiras e, soit disent, independentes, faz-nos uma confusão terrível pensar que há outras que se sujeitam e subetem a coisas que não nos passariam pela cabeça. Certo é que há pessoas que não sabem viver de outra maneira. Que precisam de orientação e regras como do pão pá boca, as quais, facilmente, descambam em premissas de sumbissão pura. Sexual ou não sexual.
No meu caso, a submissão tem piada no contexto sexual durante dez minutitos. Mas só é assim porque não é meu, porque não tenho que conviver com isso, porque é uma excepção a uma regra que nunca terei. E apesar de achar que na esfera pública todos no submetemos a qualquer coisa, mais que não seja à estupidez do chefe, em privado a submissão está demasiado perto da humilhação para que possa ser sempre uma coisa divertida.
De madalena a 24 de Agosto de 2005 às 12:56
soit disent - deve ler-se "soit disant".
De
sissi a 24 de Agosto de 2005 às 14:01
OLá Madalena,
obrigada pela sua intervenção, mas por acaso acho que onde se lê «soit disent» se deve ler «soit disent». Obrigada. Volte sempre.
De
Rosebud a 24 de Agosto de 2005 às 15:17
Olá Sissi,
Também gostei muito desse filme e basicamente pelas mesmas razões. Desde logo o James Spader, cujo trabalho igualmente admiro. Mas também o plot. Uma história simples sobre um assunto nada simples, creio. Numa sociedade espartilhada como a nossa, cheia de conceitos e pré-conceitos, a fantasia surge igualmente balizada, limitando-se a roçar os limites do incorrecto, do que nos faz corar. Quando para alguém essa fantasia vai mais longe e passa a definir os contornos da sua própria personalidade e estar na vida, a margem de aceitação, e até de auto-aceitação, é rapidamente estreitada por esses mesmos conceitos do que é certo e errado, aceitável e inaceitável, construtivo e destrutivo, etc etc etc. O fetiche torna-nos estranhos e obscuros, tanto mais quanto menos “normal” (seja lá isso o que for) se revelar a nossa obsessão, numa sociedade onde o sexo, como escrevias há uns tempos e muito bem, é ainda um território escuro e sujo quando salta as tais fronteiras da normalidade instituída.
Para mim no contexto sexual tudo é válido desde que se cumpra uma só premissa: aquilo que se faz tem de ser desejado pelos dois. Se os dois querem, os dois fazem. Se um não quer, os dois não fazem. Pessoalmente, essa onda de absoluta submissão vivida pela personagem de Maggie Gyllenhall não me diz nada. É como dizes, “em privado a submissão está demasiado perto da humilhação para que possa ser sempre uma coisa divertida”. Mas acredito perfeitamente que aquilo que para mim roçaria a humilhação, para outras pessoas seja um major turn on. E se a submissão resultar de um acordo voluntário entre os envolvidos, não creio que a humilhação exista sequer. Aliás, no filme, acho que, apesar de ser ele quem dá as ordens e dita as cartas, é ela quem tem o verdadeiro poder e quem acaba por controlar o jogo. Pessoalmente choca-me mais que uma mulher vá aprender a 'dança do varão' sem convicção, apenas para cumprir a fantasia do parceiro e assegurar a relação, do que estes jogos de poder privados em que ambos estejam de acordo e o vivam com prazer.
Como sempre, gostei muito de te ler :-)
Beijinhos,
R*
De
sissi a 24 de Agosto de 2005 às 16:00
Minha cara,
são pessoas como tu que fazem aumentar a responsabilidade de escrever uma coisa decente todos os dias...
Beijinhos grandes e obrigada pelas visitas! São sempre uma prazer e uma mais-valia!
De
Rosebud a 24 de Agosto de 2005 às 16:35
ui, agora corei...
A chave é o consenso. Porque se existe, então a noção desautorizada com que se define a humilhação desaparece sem rasto.
It's not my cup of tea also, mas julgo que os jogos de procura de felicidade idiossincrática podem significar uma experiência de liberdade passional que se traduz num objectivo, logo uma viagem de vida. Foi essa a leitura que fiz, e havendo consenso e cumplicidade, porque não?
Mas entendo-te. Humilhação não é comigo não.
Continuas numa forma crescente. Ando mesmo a gostar de te ler. :)
De
sissi a 25 de Agosto de 2005 às 12:14
Thank you! I aim to please!
Já os teus escritos me fazem sentir burrinha, burrinha. É que tenho que os ler e reler para compreender...Olha se os nossos cafézitos fossem assim? ;-)
Baci tanti!
De
T. M. a 29 de Agosto de 2005 às 12:49
Também gostei muito do filme, sobretudo por gostar do tema e por ele ser uma surpresa, já que o filme aparenta ser um filme para puro entertainment e não é (só).
"No meu caso, a submissão tem piada no contexto sexual durante dez minutitos. (...) porque é uma excepção a uma regra que nunca terei (...)".
Embora a cama seja por excelência o terreno do "vale tudo", é verdade que em geral os fetiches têm muito a ver com aquilo que em geral não somos no dia-a-dia. É normal que pessoas dominadoras e com posições importantes no emprego e no seu meio tenham o fetiche da submissão.
Eu acho que das melhores cenas do filme é mesmo quando ele se masturba e se vem para cima dela, com uma tensão enorme em que ela não tem bem a certeza do que o "patrão" vai fazer, e se vai passar o limiar das regras implícitas que os unem.
PS: Boa descoberta, este blog. :)
De
sissi a 29 de Agosto de 2005 às 16:00
Também gostei dessa cena, especialmente do ar desconsolado dela quando percebe que o gozo tinha sido só dele...
Ultram abuse.
Ultram abuse.
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