Quarta-feira, 2 de Março de 2005
...

javier bardem
Há filmes que nos dão que pensar. Mar Adentro é um deles. Mais do que discutir comigo mesma a questão da Eutanásia, dei por mim a pensar nas letargias e mesmo paralesias que nos obrigamos e nos obrigam sem as termos pedido. Mortes assistidas com um espectador previligiado, que somos nós mesmos, num cadafalso dourado e adornado por habitos de vida e comodismos vários. Foi a vontade de morrer deste Ramón que me acordou para a vontade que tenho que outras coisas morram em mim.
A pouco e pouco lá iremos. Tal como Ramón Sanpedro, de resto...
Ainda não vi o filme em questão, mas a temática é algo que me interessa de sobremaneira. Porque embora seja o brocardo comummmente conhecido quer dita que a vida é curta, é fácil encontrar o oposto. A vida pode ser excruciantemente longa, de as garantias mais básicas não forem pura e simplesmente passíveis de serem executadas. As garantias das necessidades, das alegrais mais básicas e essenciais á dignidade de uma vida que valha a pena. Bem sei que é romântica e inspiradora a ideia de alguém que suporta todas as agruras estoicamente, mas imaginar o que é uma prisão orgânica em meio á lucidez da solidão e incapacidade é algo que não será muito fácil de executar. E quando a vida nada apresenta senão um lento desfilar de dor e incapacidade, quem é que tem a autoridade moral para falar da vida a todo o custo, quando o seu dono deseja dispor da mesma, nas condições que a sua dignidade pessoal lhe garante?
Este tipo de testemunhos talvez sirva para ilustrar que por vezes, com o tanto que temos, escolhemos complicar e fazer tão pouco. E com tanta margem para progredir, com tanto para enlaçar na maravilhosa graça que a vida pode ter, se pudermos escolher vivê-la no que de melhor pode ter.
Não são discussões fáceis, estas da vida e morte. Do que pode levar uma pessoa a simplesmente escolher apagar-se. Mas será que alguém consegue imaginar o que é não poder mexer-se? Não poder folhear um livro, dar um passeio, ter sexo, tocar, sentir, experimentar? Nunca? Em tempo algum? É que nessas alturas a faculdade de ver as cores, ouvir música e outras vozes não parece grande consolo, e a solidão deve ser de enlouquecer...
Comentar post