Segunda-feira, 15 de Maio de 2006
Bebedeira Sexual
I like to have a Martini

Two at the very most

After three I´m under the table

After four I´m under my host


Dorothy Parker


Não raras vezes, nos tempos em que vivemos, os conceitos de luxúria, sexo, depravação, deboche e quejandos vêm associados ao consumo de alcóol e drogas. Em maior ou menor quantidade, com mais ou menos sofreguidão e necessidade, quase todos já tentamos saber quão mais prazeroso ou fácil ou descomplexado o sexo pode ser quando já fumámos ou bebemos o suficiente para que o nosso super-ego deixe de ser um filtro e passe a ser apenas um conceito nos livros de Psicologia.

Confesso que houve altura em que achei que nunca conseguiria ter sexo sem a dormência boa, também chamada de «estou-me a cagar pó mundo e para o que ele possa pensar», que uns copitos de um fine wine podem trazer. Já sem falar da languidez e do constante flirting mode, da forma suave e calma que os movimentos ganham e o súbito descréscimo do raio de visão de uns olhos que, semi-cerrados, transbordam desejo.

E embora beba e fume socialmente o certo é que melhor sexo que já tive aconteceu quando estava toldada por um copito a mais ou uns fumos matreiros. Obviamente não falo de uma estado de semi- inconciência ou de amnésia alcóolica, falo apenas de um buzz, um horny buzz que torna a situação muito mais excitante. Suponho que assim seja porque, de facto, nos permite agir de acordo com a nossa vontade sem a «chatice» dos nossos fantasmas e o «aborrecimento» dos recalcamentos. Para além de que o toque ganha uma dimensão paquidérmica, em que uma mão parecem 10 mãos, um polvo gigante com tentáculos que são sentidos em todos os cantos.

Porém, os 31 anos que conto no lombo não me deixam fazer de cada date um drinking date e a idade é uma coisa que gosta de se manifestar nas alturas menos próprias. Ainda no outro dia fui convidada para uns «drinks after work», daqueles-que-não-sei-bem-no-que-vão-dar-mas-pelo-sim-pelo-não-vou-depilada, e pedi sumo de laranja. «What??!!» pergunta o meu acompanhante, como se tivesse acabado de pedir leitinho quente com bolachinhas. Ignorado o meu pedido, lá me trouxe um copo de branco. Ora eu, que ainda me estou a habituar a estas refeições líquidas, passada meio hora já o telemóvel me caía da mala, juntamente com as chaves de casa, e o decote que descaía e os olhos que iam ficando mais pequeninos, com a tusa cada vez maior enfeitada pelo sorriso maléfico que só o desejo sabe como provocar.

Não nego que tenho boas recordações dessas noites. Porém, pergunto-me se o facto de estar mais trôpega me impediu de viver uma potencial boa foda com o grau de exigência que gosto de habituar os meus parceiros? Ou seja, será que bêbedas mudamos os parâmetros?

Como sempre, falo por mim. Julgo que as minhas premissas não se alteram porque nessas situações me sinto ainda mais predisposta para o sexo do que o normal, mas não me parece difícil aceitar que há situações em que podemos deixar que uma foda fique a meio e a desculpabilizemos por via dos Dry Martinis e das Pints.

O alcóol é um lubrificante social. No sexo, faz-nos viver as fantasias sem complexos, soltar as palavras sem medos e o olhar do Outro é sempre recebido com um sorriso largo e seguro. Garante-nos uma liberdade aparente que julgamos não ter, ou não conseguimos viver, quando estamos sóbrios. É perigoso, portanto...

Não nego o lado positivo do consumo quando se trata de sexo, mas nada bate a «bebedeira», a tensão e a agitação de um parceiro atento e dedicado. A melhor da erva e o mais sublime dos vinhos não roça a qualidade de uma boa foda consciente do seu efeito.
E não devemos querer nada menos que isso.

publicado por sissi às 22:20 | link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Comentários:
De sissi a 22 de Maio de 2006 às 06:30
Caríssimo Quim,
são incentivos como o seu que me levam a continuar sempre com o mesmo espírito...
Agradecida.
Cumps


De Quim Barreiros a 22 de Maio de 2006 às 00:50
Ora bem,
Sissi, isto até parece escrito por mim. Eu ando a dizer o mesmo há mais de 30 anos. E a melhor receita é sempre a do tinto. Como hoje já não se faz carrascão, qualquer pinga portuguesa consegue estimular tão depressa uma alemã, uma holandesa, uma francesa, uma inglesa, ou, porque não, uma portuguesa.
Porque é que julga que eu ando sempre em tour pelo mercado da saudade? É por causa do tinto! Sem tinto, mais de metade do mundo não fodia.
Dê-lhe forte, que vai no bom caminho,
Seu, como de costume,
Quim


De Mirone a 20 de Maio de 2006 às 04:25
Prezada Sissi,
agradecido pela cortesia, não me sobrestimando. O prazer é recíproco.
Voltando ao dito, concordo plenamente consigo no que respeita à premissa subjacente à «copulação linguarejada». Empirista em absoluto! Não é recomendável a ingenuidade neste domínio, quando se pretende primar pelo lado «vanguardista» da temática (ui! Agora exagerei).
Digo isto, estando consciente, da existência de «génios da palavra» que nunca “macularam” a componente material do seu ser. Ao que consta, Pessoa, terá sido um deles. De facto, temo por desvios metafísicos, por melhores que sejam. Prosaicamente falando: santinhos a falarem de sexo? Não, obrigado!
Quanto ao universo, falo de um «flâneur», três «workaholic», uma sonsa, duas doidas e uma cabeça no ar.


De sissi a 19 de Maio de 2006 às 10:14
Carissimo Dani,
ainda em Londres!? Gostou mesmo disto!
cumps

Caro Mirone,
que pena que nao nos brindou mais cedo com os seus comentários!!!
Muito obrigada pela gentileza!
Compreendo o pudor ou pudismo de que fala, porém, o sexo falado a que alude não tera sucesso, certamente, por essas bandas. Falar de sexo sim, mas sempre com uma vertente empírica apensa.
Que universo é esse a que alude?
Apareça sempre! É um prazer!
Cumps.


De Anónimo a 19 de Maio de 2006 às 00:46
Dani (ainda!) em Londres para Sissi: "Em terra de bebados, quem esta sobrio e' rei".


De Mirone a 19 de Maio de 2006 às 02:01
Prezada Sissi,
há algum tempo que acompanho as suas venturas, reais ou ficcionadas, pouco importa. Aprecio, por estes lados, a coexistência pacífica entre «temáticas mundanas» e um certo esmero na forma de as abordar. Congratulations!
Voltando ao assunto. Suspeito que, mesclado nos rabiscos, devo ter enviado o meu BI. Caramba! Só passaram umas semanitas?! E pensar no par de ocasiões em que me deram «twenty-five»… O que custa mesmo é aquele anito para além das três décadas. Confesso: ainda não interiorizei e não será tão cedo. Adiante.
Estou para saber os motivos que levam uma amena conversa, entre «cérebros dados a boas sinapses», descambar no preciso momento em que se pronuncia a palavra: SEXO?! Ou se manifestam inquietações de pudor ou é tudo abaixo da brejeirice. É tão bom falar dele sem escolhos. Há até quem admita o sexo falado (não me parece tangível, mas admito). No entanto, conjecturo reacções de um certo «universo que eu cá sei» à seguinte tirada: Que foda! Que valente foda dei hoje... (note-se o carácter altruísta).
Valha-me este cantinho… oops… palácio!


De sissi a 18 de Maio de 2006 às 08:55
Caro Mirone,
antes de mais, mil desculpas por não ter percebido que tinha visitado este humilde palácio mais cedo e, assim, lhe dar as boas vindas. Mil desculpas.
Percebo o seu ponto de vista e quanto mais o tempo passa mais concordo com ele. A idade, por mais brutal que seja, tem esta coisa maravilhosa de a determinada esquina da vida nos mostrar o outro lado do espelho. Neste assunto assim acontece. Noutros tb. Aguardo novos desenvolvimentos...
Cumps e volte sempre.

PS - vou tentar saber o nome do filme. Ja volto a si.


De Mirone a 18 de Maio de 2006 às 03:31
Vislumbro a resolução de um «enigma pessoal». Sempre que me diverti à brava, estava sóbrio. Nos melhores diálogos, estava sóbrio. No melhor sexo, estava sóbrio. Factor comum: um «som bem oleado».
Entenda-se sóbrio como antítese a «estado anímico com tempero químico voluntário». Em boa verdade, quando em fuga ao meu carácter abstémio «libertei o ego», a harmonia de movimentos, não foi a desejada (com especial incidência nos momentos do «truca-zuca»). Aqueles beijos melosos e semi-húmidos na nuca, tendiam a sair rudes e ensopados. Serpentear o dorso entremeando lábios e sopros quentes eram sinónimo de lambuzadelas e grunhidos mal disfarçados. Linguarejar em forma de sussurro ao ouvido alheio transformava-se fatalmente em impropérios à ocasião.
Deduzo que o meu estado anímico é dado a estados «apoplécticos» quando condimentado para além do qb.
No entanto, constato que entre os meus, não há quem me leve a sério. Pior. Tendem a classificar-me entre o doloso ou autor de agudas sessões de aborrecimento...
Será assim tão difícil provar que a capacidade de abstracção difere de indivíduo para indivíduo e que a mesma não implica, necessariamente, químicos milagrosos?
Quanto à mensuração dos clímax, não tenho ilusões (não olvidando o António Damásio).


Ps: Gostava mesmo de saber o título do filme a que me referi no comment ao post de cinco de Maio ;)


De ze maria a 15 de Maio de 2006 às 23:43
post que tem tanto de verdade como de sublime...

mas não devemos procurar a foda sóbria, onde não seja preciso tar com uns copos ou com uma moca em cima para nos soltarmos?diz o idealista, claro.


De Bock a 16 de Maio de 2006 às 00:08
Amén!
E não tempo para mais... :D


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