Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010
PPP - Pill-Poping People

Eu sou, claramente, uma gaja optimista. Já vivi mais tristezas em 36 anos que muitos de vocês encontrarão numa vida inteira. Não ser optimista e feliz seria quase uma sobranceria para com o que a vida me permitiu fazer e um sinal, claro, de muito pouca inteligência. Por isso me incomoda este mau estar geral, esta infelicidade endógena que nos apodrece e paralisa. Esta conversa da crise, da contenção que nos exigem com medidas que não entendo. Como me aflige olhar à volta e perceber que a depressão, a tristeza e a total demissão pela própria vida é mais valorizada que o seu inverso.

 

Dizer que se está deprimido passou a ser um sinal de status. Trocar referências de «médicos amigos» é desbloqueador de conversa. E contar, à mesa de café, os nomes dos comprimidos que se enfiam bucho abaixo é tão normal quanto pedir uma bica escaldada. E pergunto-me: desde quando é que ser-se infeliz é bom? Em que momento da nossa patética existência como comunidade e projecto social passou a ser cool ser-se ansioso, viver com medo e existirmos em dormência farmacêutica? E quando é que mudámos de paradigma e ser feliz, optimista, responsável pelo seu bem-estar passou a ser um tratado de estupidez e perca de tempo?

 

Agora que escrevo isto até entendo. Stroke of insight. Ser optimista não é ser pateta alegre nem ver a vida com lentes cor de rosa. Mas dá trabalho. Oh se dá. Dá aquele trabalho que ninguém pode fazer por nós. Não há cábulas, internet nem relatos que nos valham. Estamos nós, sem aditivos, e nós mesmos. E acreditem, eu sei o quanto isso pode ser assustador. Mas estar atento e consciente do que a vida nos traz é um processo compensador. Além disso, expliquem-me os infelizes e depressivos crónicos: o negrume tem funcionado?  

 

A tristeza acontece, as questões infelizes aparecem, sem que possamos fazer nada. Mas cultivar a natureza de um sentimento que nos faz mal, que nos oblitera, nos confunde e nos mata, através de um automatismo de pill-popping - vão ao Google - sem mais trabalho nosso ou pedido de ajuda, parece-me pouco. Vivemos rodeados de PPP com síndrome de KKK - este acho que não precisam de ir ao Google. E cada um faz o que quer, obviamente. Mas não me fodam. Não me olhem de lado quando me proclamo feliz, quando me meto nas merdas new age porque a old age não me faz sentido ou quando escrevo textos destes porque sei, melhor que muita gente, o que é morrer e nascer de novo.

 

E se eu consigo, vocês também.



publicado por sissi às 23:53 | link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Comentários:
De Menina da Rádio a 8 de Outubro de 2010 às 00:56
Percebo a associação de pessoas felizes a pessoas idiotas, patetas. Tem a ver com a pouca ambição que têm. A vida que lhes calhou basta, não querem muito mais. Mas podemos ser optimistas e, ao mesmo tempo, querer mais da vida. É uma felicidade insatisfeita, proactiva sem aditivos.


De Sissi a 8 de Outubro de 2010 às 01:02
Ser optimista, pra mim, não é pensar positivo e já está. Implica acção, proactividade. E no cantinho do mundo onde só habito eu, a felicidade insatisfeita leva-me a não ser grata e não dar conta do bom que tenho. Não há nada que a insatisfação produza que a satisfação não possa produzir melhor. Mas isso sou eu. Whatever works!


De Kowalski a 8 de Outubro de 2010 às 01:05
Apesar de tudo, ser infeliz, declarada e assumidamente, dá menos trabalho. É muito mais fácil vitimizarmo-nos do que lutar por um estado de felicidade. Simplesmente porque um estado de felicidade jamais será constante, e isto assusta as pessoas, tornando-as, por vezes, submissas à infelicidade que elas próprias criam e alimentam. É algo que demora a conquistar e que pode escapar-se-lhes das mãos num ápice, sem que possam fazer nada para evitá-lo.

Ainda assim, vale a pena pagar o preço de tentar, a cada momento, ser um pateta alegre da sociedade. E mesmo com esforço, nem sempre se consegue.


De tepidezcronica a 8 de Outubro de 2010 às 10:18
nem sei como começar..

sou leitor assíduo das suas linhas e não posso deixar de meter uma colherada aqui já que normalmente não o faço com o receio de ser um elefante numa loja de cristais.

Na minha opinião, o problema reside numa espécie de sindrome de peter pan que nos envolve desde a primária até esta alegada idade adulta que temos.

Acredito que somos muito protegidos que raramente nos advertem ou advertiram para um um facto insufismavel, a infelicidade faz parte da vida (que lindíssimo e aprumado cliché)

A forma como reagimos, como os outros reagem é absolutamente inócua, os outros só interessam se gostarmos deles, ou se formos dados a obras de caridade e afins.

Não gostava de a ver triste porque o semblante narrativo de sua Alteza é muito mais bonito quando está feliz!

De um leal súbdito


De Salvador a 8 de Outubro de 2010 às 12:41
Um bom dia, Sissi... ))

'... Now the drugs don't work
They just make you worse...'

VERVE - Drugs don't work

Eu sou um Homem feliz.
Valorizo o que tenho, o que consigo e também porque valorizo o que luto para conseguir o que não tenho... mas terei.
Altos e baixos na vida todos temos. Mas Ela tem uma capacidade quase inesgotável de nos renovar e revigorar. Tem é que começar por nós, olhando para os Altos e não ficando nos Baixos à espera do Euromilhões.
É como diz... dá trabalho! Mas consegue-se alguma coisa sem trabalho? Alguns 'afortunados' até conseguem, mas por norma esses são os mais infelizes e depressivos. Para mim, nada vale tanto como aquilo que conquistamos com o nosso querer.

Sem prestar vassalagem, aprecio bastante a sua escrita e as suas reflexões.

Cumprimentos


De Mac a 8 de Outubro de 2010 às 14:07
Finalmente alguém que pensa em felicidade como eu ;-)

É por isso que gosto de ti, pelo menos daquilo que nos dás a conhecer aqui.

Já há uns tempos escrevi isto "Gosto mais de trabalhar para a felicidade e ser feliz, viver feliz e estar feliz. E, sim, todos me poderão dizer que é humano, que todos gostamos de ser felizes, mas há uma diferença entre fazer por isso e esperar sentado que a felicidade nos bata à porta. Pois é, é que aqueles que a esperam, a única coisa que conseguem é calos no rabo de tanto esperar.

Como é óbvio há os incontornáveis, as perdas, as doenças e tantas outras situações que não nos fazem felizes, mas acredito que até nos maus momentos, há formas diferentes de os viver. Há quem se entregue e quem faça tudo para sair dali.

A felicidade dá trabalho, não nos é servida numa bandeja, pelo menos dá o trabalho suficiente para a nossa preguiça e letargia. Dá trabalho acabar com um casamento, dividir as mobílias, as finanças e os filhos. Dá trabalho mudar de emprego, apesar dos empregos não abundarem, bem sei, e na época que atravessamos, muitas vezes, mais vale aturar um emprego do que uma liberdade sem ter para onde ir. Mas não podendo dividir uma casa a meio e bater com a porta do escritório, ao menos podem-se encontrar umas ilhas, os amigos, a família e sítios, ou aquela actividade que nos agrade.

E se há os incontornáveis, ou adiáveis, também os há que afinal nos fazem bem. E ser feliz é só isso, é encontrar mesmo no caos qualquer coisa que nos faça bem. Depois, tomamos-lhe o gosto e não queremos outra coisa e devagar lá se vai afastando o que não nos faz felizes. Roma e Pavia não se fizeram num dia, lá se diz, e é verdade. O que interessa é começar, não baixar os braços e aproveitar tudo quanto esta vida tem para nos dar e que é muito.

A vida não é fácil para ninguém, mas há que encara-la e não nos deixarmos arrastar por demasiado tempo, mais do que aquele que as situações nos merecem, ou precisam. Há um tempo para tudo, para sofrer, para lamber as feridas, para levantar a cabeça e para recomeçar. Não nos pode é faltar tempo para viver e ser feliz."

Beijinhos :)


De arielfemea a 9 de Outubro de 2010 às 02:51
SISI CURTI E IDENTIFIQUEI-ME... parabéns!


De Pedro Matias a 10 de Outubro de 2010 às 14:32
É isso e o "tipicamente" queixume do "tipico" português... mesmo que andem num bruto carro, corra "quase" tudo bem, queixam-se!! O meu amigo queixa-se, o outro também ... quem não se queixa deve afogar a "nessecidade" de queixume em algum fármaco... voilá!!

Esta sociedade de atirar pedras ao ar a todo o momento, fazer aclodir extritamente o que está mal... enfim, ou acontece de mal... o "pouco bem" que acontece ou deixam que sobressaia em alguma atitude de outrém é minimizada como se nada fosse... se correu bem "não há nada a dizer"... exemplo: a seleção ganhou... banal, perde e parece que desabou o mundo quando aquilo não passa de uma unica bola que corre 90min à volta do campo. O futebol é só mais um dos "maus exemplos" do meu ponto de vista...

mudar a mentalidade naturalmente afundada na desgraceira alheia de uma pessoa tipicamente portuguesa já não é nada fácil... mudar um pouco o espirito desta sociedade é assim algo superior ao "impossivel"...


De antiego a 12 de Outubro de 2010 às 12:05
Gostei. É curioso que escrevi sobre a felicidade e idiotice a 8 de Outubro em:

http://antiego.blogs.sapo.pt/98833.html


De Anónimo a 5 de Novembro de 2011 às 01:54
E isso.


De safety vest a 31 de Março de 2016 às 12:17
Obrigado por fornecer esta informação, bom vídeo


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