Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009
Phone Booth

Fundida no sofá da minha nova casa, que ainda cheira a tinta e a papel de parede, rumino sobre a importância da tecnologia nas relações amorosas. E faço um esforço de memória até aos tempos em que o telefone era apenas um meio de comunicação e não o catalisador de intenções.

 

É claro que a modernidade é uma coisa que tem tanto de inexorável como de incrivelmente boa, mas o seu «uso» excessivo acaba por retalhar a pureza dos actos e potenciar a cadência dos movimentos. Ainda sou do tempo em que atendíamos o telefone e ouvíamos do outro lado um «como estás?» ao invés do costumeiro «onde estás?». Parece que o advento dos telefones sem fios veio fortalecer o primado da forma sobre o conteúdo, como se fosse mais importante aferir onde nos encontramos geograficamente no mapa do que saber com qual das disposições acordámos nesse dia. Parece que o corte dos fios do telefone permitiu também um corte das pessoas, umas às outras. Porque quando alguém se interessa primordialmente em saber onde me encontro, ao invés de questionar como vou andando, faz-me pensar na verdadeira motivação do telefonema. E tempo é uma coisa valiosa que tento não desperdiçar.
E depois temos as mensagens escritas. Esse mundo onde, ao contrário do que se poderia pensar, tudo acontece. O que também é estranho, se pensarmos que os telefones existem, sobretudo, para falar. Mas o verbo foi substituído por outro, muito mais lato. Agora comunica-se, mesmo que não se fale. E não me refiro a linguagem não verbal, que nasce da convivência corpo a corpo. Falo das mensagens que se enviam a propósito e despropósito de tudo e de nada que nos permitem passar pela vida sem sensações primárias que nos causam medo e angústia. Conheço relações que se transformaram em autênticas experiências de Pavlov. Ao sinal de mensagem, há reacções, nem todas condizentes com a noção clássica de envolvimento, a típica e, pelos vistos, muito passée, que inclui homem, mulher e palavras trocadas vis-a-vis. Hoje em dia, trazemos e excluímos pessoas do nosso círculo social à velocidade de meia frustração. A nossa capacidade de contentora de aguentar uma expectativa gorada é nula (ou mais baixa, vá…) porque a facilidade de fazer amigos virtuais e tecnológicos se instalou e veio para ficar.
Sem querer ser mais papista que o Papa, até porque vos escrevo de um blog com o telemóvel ao lado, esta é uma questão que me dá que pensar. Mas para que não pensem que ensandeci, aqui vão os habituais vocábulos: grelame, machame, broche, mamas e canzana, sem nenhuma ordem especial. Qualquer dia ainda me tomam por um blog sério e isso é de evitar a todo o custo.


 


publicado por sissi às 01:34 | link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Comentários:
De Vulgar a 4 de Fevereiro de 2009 às 08:41
Boa malha Sissi.
"Onde estás?" é uma pergunta tipicamente controladora e feminina.
Por favor não dêem cabo disto com georreferenciação , GPS, imagem em tempo real e outras modernices nos telemóveis.
Deixariam de perguntar onde estás, para perguntar com quem estás, a acabariam os alibis.


De sb a 4 de Fevereiro de 2009 às 11:54
Ainda hoje ouvi na rádio que o Google criou uma cena chamada "latitude", para que as pessoas saibam, através do telemóvel, o exacto local onde os amigos, etc, se encontram...
Acho isto um pouco estranho... Nao irá trazer problemas? Nem sempre queremos que os outros saibam aonde estamos, seja isso por boas ou menos boas razoes ;)


De Moi a 4 de Fevereiro de 2009 às 12:21
Para esposas/maridos ciumenta(o)s, detectives privados e afins, não existe nada melhor. E, de um outro modo, também bastante útil para "despachar" relações em vias de extinção. Assisti a uma ou duas destes "arquivamentos" e achei delirante.


De Moi a 4 de Fevereiro de 2009 às 12:22
"a um ou dois destes...."

:)


De sissi a 4 de Fevereiro de 2009 às 14:25
Credo! No dia em que isso tudo acontecer volto ao primarismo dos pagers. Posso sempre passar por uma médica da Anatomia de Grey. :-)


De P a 4 de Fevereiro de 2009 às 16:00
Grelame, broche, minete, canzana, anal, bondage!

Pronto... posto isto já posso então comentar também o assunto sem que digam que sou eu a baixar o nivel do blowjob... perdão do blog!

Efectivamente Sissi é alarmante quando a nossa relação se baseia em posts e emails num mundo digital quando há tanto para dizer com os olhos!

É desgastante e angustiante pois nem sempre os meios digitais funcionam como se desejaria e ficam as relações pendentes duma maior disponibilidade no acesso à Internet...

Q: Então, como estás?
A: É pá nem me digas... tou sem net há 3 dias... tou a dar em doido!


Ahhh espera.. estavas a falar de telemóveis e não da vida online... :-/ bolas.. e eu até que já ia lançado.

Só tenho um contra em relação aos telemóveis: não tenho o teu numero e assim há muita coisa que não te digo!

Afinal quando tiras um tempinho para nos conhecermos pessoalmente algures na Capital?

P


De sissi a 4 de Fevereiro de 2009 às 16:33
ahahahah a mandar-se para fora de pé!
Vá passando por aqui. Falamos.
Cumps


De Lúcio a 4 de Fevereiro de 2009 às 17:37
Sou desse tempo, o tempo em que não existiam telemóveis nem computadores. Pessimista? Nem por isso, o telemóvel só antendo quando me apetece, mensagens escritas borrifo-me e o computador só utilizo para comunicar quando sinto vontade. No fundo, o que isto traz é democratização e, como sempre sucede quando a democratização está de berço, falta refinamento e educação na forma como se utilizam as ferramentas.

Boa tarde, gostei do blogue.


De clea a 4 de Fevereiro de 2009 às 21:04
Viva Princesa Sissi. Gostei do texto, concordo,mas confesso que gosto da comunicação escrita, dos sms e dos emails.Não é por isso que deixo de falar quando quero com quem quero. Estas ferramentas permitem-nos comunicar sempre que nos apetece. Isso é bom. Por vezes quero dizer alguma coisa a alguém, sei que deve estar ocupado, rapidamente envio um sms e fico aguardar a resposta.Tem vantagens em muitas situações. Importante é não nos limitarmos a comunicar por essas vias, mas sim aproveitá-las para comunicar melhor e mais ao sabor das nossas necessidades. E, têm aquela caracteristica excelente que é nao termos que ver ou ouvir quem nao nos apetece, mesmo quando temos que obrigatoriamente comunicar.Eu gosto e uso.abraço


De Klimt a 5 de Fevereiro de 2009 às 00:58
Carissima princesa!

Concordo com tudo o que disse e assino por baixo... digitalmente obviamente... Mas é incrivel, como cada vez mais, os sentimentos são passados meramente por letras... e raiva, a agressividade... passam a "falas" mudas que rapidamente são esquecidas e providas de valor.

Oh as saudades, a nostalgia... de uma agressividadezinha... de uma irritaçãozinha... ao vivo e a cores... e que finais tão mais barulhentos e oportunos davam estes sentimentos.

Enfim... que nostalgia!

E um áparte realeza,não se "desfoque" do foco... os tais vocábulos!

Inté! ***


De Pedro a 6 de Fevereiro de 2009 às 11:43
"Falo das mensagens que se enviam a propósito e despropósito de tudo e de nada que nos permitem passar pela vida sem sensações primárias que nos causam medo e angústia".

Verdade (quase) absoluta!
Beijos para a Sissi.



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