Domingo, 22 de Junho de 2008
Holding

«Então e tu? Não pegas em ninguém?»

 

Foi esta pergunta lancinante que pôs termo a uma conversa banal e simpática. O meu amigo estava exultante por ter encontrado alguém de quem gostava e eivado de sentimentos nobres mandou para o espaço a questão: então e tu? Não pegas em ninguém? Pensei em várias respostas para lhe dar. Teria gostado de lhe apaziguar a culpa cristã que só uma pessoa feliz e recém-apaixonada sente. Como se fossem atingidos por qualquer coisa que os impregna de uma especialidade que gostariam de explicar e passar aos outros.

 

Dias depois percebo que não. Que não pego em ninguém. Pelo menos enquanto achar que o compromisso me mata, que as pessoas me enfraquecem e que a solidão me salva. Ou então, enquanto não encontrar alguém que me faça pensar o contrário.

 

Há coisas que se dizem (e pensam e sentem) nestas alturas em que «pegamos nas pessoas» que não condizem com a minha natureza inquisitiva. Que caralho é um «projecto de vida em comum»? Casar e ter filhos? E quem não quiser ter filhos? Que projecto é que pode ter? E quem não vir utilidade no casamento?  Nem na vida sob o mesmo tecto? Que projectos de vida restam a pessoas assim?

 

Aos 33 a questão não me atormenta mas toca-me. Sou uma romântica com consideráveis doses de cinísmo e cristalizei no celibato. Não «pego em ninguém» porque ainda não me foi oferecido um modelo de relação que me interesse. Alguma coisa que possa crescer e viver em liberdade, assente no respeito pelas premissas estabelecidas e que perceba que it takes two to tango. O afecto, o erotismo, o sexo, a tesão são valores que a inexorabilidade do tempo se encarrega de arrefecer e apagar. O que sobra, o substracto com o qual vivemos depois, é a capacidade que temos de viver uns com os outros, sem nos odiamos de forma regular e sendo profundamente amigos.

 

Querido, acho que já te respondi.

 

 



publicado por sissi às 23:06 | link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Comentários:
De João a 23 de Junho de 2008 às 12:40
Estreando-me na caixa de comentários deste blog, faço-o porque este post me impressionou muito mais do que a líbido. Que a Sissi tem cultura e cabeça além de carne, e que em todas essas áreas tem talentos acima da média, já há muito se tinha tornado claro.
É então que leio que "não pego em ninguém. Pelo menos enquanto achar que o compromisso me mata, que as pessoas me enfraquecem e que a solidão me salva. Ou então, enquanto não encontrar alguém que me faça pensar o contrário. E encantei-me: com a pérola de clareza e com a identificação. Mas quando li “Que projectos de vida restam a pessoas assim?” respirei fundo e preparei-me para a epifania. Não o foi exactamente; mas se é gratificante verificar que existe quem se reja pela mesma equação, por outro lado desejo sinceramente que nos próximos três lustros lhe encontre a solução, porque eu ainda não.


De I&U a 23 de Junho de 2008 às 12:56
E pelas mesma razões eu subscrevo!


De Frederico a 23 de Junho de 2008 às 15:27
Sissim

Um ou dois conselhos:

- Pega em alguém com quem gostarás de conversar daqui a 33 anos

- Dois carvalhos não podem ser plantados muito juntos para um não asfixiar o outro, mas também não podem estar muito longe sob pena de não ser verem a crescer

A minha opinião:

Projecto de vida em comum é aquilo que duas pessoas à luz dos conselhos dados acima as realize e que a soma das duas pessoas seja sempre melhores pessoas.

O que acho é que se passa muito tempo a discutir o que não se gosta, a racionalizar as relações e sobretudo a dificuldade de se abdicar do eu e pensar e nós.


De sissi a 23 de Junho de 2008 às 15:35
Ricardo,
agradecida pela partilha.
Cumps


De Francisco a 23 de Junho de 2008 às 18:09
É raro ver tanta verdade em tao poucas palavras. Sissi és a maior.


De Capitão Microondas a 23 de Junho de 2008 às 20:32
Sigo este blogue há algum tempo.
Também já dei uma mirada no livro, que já ofereci a uma gaja a quem me pareceu adequado oferecê-lo.

Até hoje não tinha dado soltura à vertente web 2.0 até porque me chateava a ideia, após sorrir tantas vezes com certos comentários masculinos e pensar "olha, mais um a ver se manda uma trancada na sissi", coisa só batida em termos humorísticos por alguns comentários masculinos, dirigidos a gajas, em redes sociais, que após a risada me deprimem um pouco e me fazem pensar "são estes caralhos que lixam muita queca aos demais".

No entanto este post tenho de aplaudir, fazendo apenas uma correcção: já nem para ter filhos é preciso ter um projecto de vida em comum (que não os próprios filhos). O futuro até nesse tema passa por novos modelos. Há coisa de um ano ouvi Kjell Nordström, guru com típica look marciano, tecer considerandos sobre as tendências do futuro e dizendo que nas sociedades nórdicas já se assiste a modelos de vida paralela com filhos pelo meio, sem pruridos (embora ainda alguma censura social).

Portanto... grande resposta essa apenas com essa ressalva: até filhos um dia podes vir a ter, se te apetecer, sem teres de por isso considerar os vícios da viatura "projecto em comum", modelo "castrador", sodomita de entusiasmos, motivações e sentimentos de (não) pertença que o ser humano necessita para manter aceso o interesse pelo outro.


De Zeca Diabo a 23 de Junho de 2008 às 21:44
Cara Princesa:
Ao contrário de Sua Alteza eu não sou nenhum entendido na matéria mas, parece-me a mim que a falta de todos esses "projectos" se deve á falta de alguém que a faça pensar neles... Quem sabe se um dia olha para alguém e ve isso tudo passar em frente aos olhos?? E pode ser quando menos esperar... Até lá, não menospreze o seu amigo que os tem...
Cumprimentos


De Riccardo a 23 de Junho de 2008 às 23:06
Well... long time no see...! Como se encontra a cara Princesa? Permita-me fazer uma sugestão... Eu sou daquelas pessoas que não podem pensar em compromisso e planos a mais de duas horas assustam-me, portanto não os faço e não penso no compromisso. Porque não deixar-mo-nos levar e ver onde isso nos leva? Podemos sempre saltar do barco! ;)
Cumprimentos.


De joana m. a 24 de Junho de 2008 às 12:42
cara sissi,

identificava-me completamente com as suas palavras. no entanto, de ha uns tempos para ca, aprendi que o segredo é, simplesmente, deixar-me levar. e confiar, nunca depender, mas confiar sem medos.

espero ajudar.


um beijinho


De Capitão Microondas a 24 de Junho de 2008 às 15:17
Joana,

Confiar é e será sempre um exercício de wishful thinking mas a questão não é tanto a confiança pois essa vale o que vale, e até podemos ser na generalidade felizes durante um longo período de tempo ou mesmo uma vida com alguém sem que os pressupostos da nossa confiança se confirmem, a não ser na nossa interpreação da realidade. Importa pouco.

O problema é outro e a gulosa da Sissi toca-o e bem (sem maldade): os vícios do projecto em comum, sobretudo quando este envolve a proximidade mata-tesão que apenas casos dignos da Harvard Business School magazine contrariam. De experiência própria cada vez acredito mais em "projectos em comum"... com distância qb para nos mantermos interessados no outro sem cair no vício que qualquer um caí do "tá no papo". Projecto em comum sim, mas cada um com a sua casinha, se quiserem ficam juntos duas semanas, dois meses dois anos, se lhes apetecer ficam 2 semanas a descansar quando o stress exige, e sempre, sempre com a tensão positiva de saber que o outro que até nos faz falta e no qual "confiamos" não está garantido.

Bem sei que nem hoje nem nunca um anel, um papel ou um contexto foram garantia de confiança e estabilidade na relação entre duas pessoas, mas sabe bem que na nossa cabeça isso não funciona assim.

Pegando no tal do "Sexo na Cidade" que as gajas tanto apreciam relembro uma cena que vi na TV em que, sentadas na piscina, de bikini, uma delas se vira para a "ruiva corta tusa" e diz: "então e essa depilação, não se faz?" ao que a corta tusa responde: "sou uma mulher casada, agora tenho outras prioridades".

Tá tudo dito.


De sissi a 24 de Junho de 2008 às 16:20
A gulosa da Sissi?
Será que nos conhecemos?


De Capitão Microondas a 24 de Junho de 2008 às 22:59
Oh Sissi, francamente, não é preciso nos conhecermos para saber que é gulosa, estamos agora com falsas modéstias?

De qualquer forma tenho (quase) a certeza que não, nem na minha identidade secreta nem na função de capitão microondas, herói pouco valorizado por muito gajo que me, se soubesse, me devia ligar a agradecer pela manhã o prato que lhe aqueci na véspera.


De Petrus a 24 de Junho de 2008 às 17:09
«projecto de vida em comum»:
O ano passado, conheci um par espanhol talvez com 70 anos, que tinha andado pelo Irão como quem anda em Portugal, na Jordânia estivemos juntos perto do Iraque e, estavam a planear conhecer os Castelos da Etiópia.
Isto é um belo projecto em comum, muito bem oleado ao longo dos anos, que podem ser poucos.
Ter filhos: Sem nenhuma duvida o projecto mais violento que se pode ter, implica estar muito bem preparados e, normalmente não estamos.
Utilidade no casamento? nenhuma. Os casados e os beatos, olham com medo para os divorciados/viúvos(as) com medo que a sua disponibilidade/fome lhes foda os cônjuges.

33 anos? Ainda está a começar a viver, não tenha pressa para nada. Felizmente neste blog não se fala de saúde, da falta dela. Problemas em ter/não ter filhos/casamentos/projectos/sexo....!?!?!? nada disto se compara a uma boa saúde, ou à falta dela.

... O afecto, o erotismo, o sexo, a tesão são valores que a inexorabilidade do tempo se encarrega de arrefecer e apagar...
Isto é verdade para quem se acomoda debaixo de uma vida de faz-de-conta, para quem tem vergonha dos comentários do padre, da família, dos amigos da treta, para quem entendo que temos de aguentar tudo pela estabilidade dos filhos, para quem não tem dinheiro para sair para outro lugar..
Não é verdade, para os que se estão a marimbar para o comentário alheio. Acabou, acabou. Se uma relação começa com boas intenções e deixa de funcionar, paciência. Não existem alterações para melhor quando uma relação se deteriora, mais vale acabar logo.
Talvez seja genética a capacidade de continuar com erotismo/sexo/tesão... ao longo dos anos de vida em comum, talvez o termos posto de lado quem não cumpria alguns requisitos tenha ajudado.

"sou casado(a), agora tenho outras prioridades" = a um casamento de totós, em que fodas fora do penico e anti depressivos são o pequeno almoço do casal.

"deixar-me levar. e confiar, nunca depender, mas confiar sem medos". Talvez a melhor formula.

PS: Mais vale ser feliz rico e com saúde, do que pobre e doente. Penso que foi o A.Cunhal que escreveu isto



De Capitão Microondas a 24 de Junho de 2008 às 21:08
Pois é Petrus,

Mas manda-me lá o case study de um casamento que não seja mais ou menos isso, nos dias que correm. Os casamentos que duram são aqueles em que as pessoas decidem ou fingir que não há problemas e tomar os "antidepressivos" que referes ou então simplesmente esquecem a maior parte do tempo que são companheiros e passam a ser pais, mães e parceiros de negócio, investimento e economia do lar. Se o casamento está condenado sempre a evoluir ao fim de 20,30 anos para mais bela mas conturbada e cheia de porrada amizade que temos na vida então desculpem lá mas é uma fraude. E não sei se não foi sempre assim. Eu olho à minha volta e o único casamento prá vida que vi foi o do meu octogenário avô. Na devida altura ele lá me explicou o segredo:

- "sempre fui louco pela tua avó microondas... mas no percurso comi umas 60 gajas".

- que conselho me dás então sobre o tema avô?

- "nunca comas mais de 3 ao mesmo tempo depois de casado. Dás cabo do físico e dos nervos meu neto".

Vendo a coisa pelo prisma do homem (porque o delas é igualmente válido e exemplificável) diz-me lá qual é que é o gajo que depois de ser pai não deixa de ser o macho e passa a ser o "pai do filho dela". Quero cumprimentar esse gajo.

Já agora se souberes avança-me também qual é o país em que elas perdem 10 quilos e metem mamas novas ANTES de se divorciarem e não depois, para eu fazer um estudo sobre a coisa, pode ser que ainda escreva um livro e ganhe uns cobres valentes.


De Loira a 24 de Junho de 2008 às 22:01
Bom, eu sou divorciada, e quando me perguntam porquê, não sei, foram milhares de coisas. Não querendo ser leve, mas já sendo, senti-me enganada. Para simplificar, vou só referir o primeiro e o aspecto físico.
Um dia, ou vários dias, olhei para aquele homem e era gritante, não era o mesmo com que tinha feito juras no altar. Estava gordo e com uma detestável pançorra . Tenham paciência, não há nada mais corta tesão do que uma pança. Depois juntou-se a mudança de feitio, o envelhecimento precoce e latente, a chatice que era aturar aquilo tudo...

Calculo que o país a que o estimado Capitão Microondas se refere é o nosso Portugal. Acredite que nós também reclamamos da vossa falta de auto estima, não gostamos de barrigudos, excesso de peso, cabelos descuidados, barba mal feita, roupas ressuscitadas sabe-se lá de onde.

O mal geral, em ambos os sexos, é que há uma natureza subconsciente após casamento que grita "estás à vontade, acabaram-se os sacrifícios". Erro. Não é sacrifício manter uma aparência cuidada, manter vivos os interesses e objectivos comuns e privados. A questão é se existe mesmo auto estima e gosto em ser visualmente apetecível, ou se tudo não passa de uma farsa até sacar o outro.



De Capitão Microondas a 24 de Junho de 2008 às 22:45
Loira,

Lá está, o "outro lado" do que eu disse meio a sério, a outra metade é o exagero que se impõe para que a ideia fique mais composta e caricaturada.

Nós também engordamos, também nos desleixamos, etc. A meu ver isso só pode ter uma desculpa: saúde. Tudo o resto é treta, é desculpa, seja homem ou mulher, sendo que ao homem só acresce outro factor incontornável muitas vezes que é perder o escalpe, mas mesmo aí pode agir com dignidade e estilo aplicando o corte à Ed Harris no "The Rock" ou mesma a razia total como o Ljunberg que torna a Sissi (ainda mais) gulosa.

A meu ver o mal da esmagadora maioria das pessoas, homens ou mulheres é só um: embarcam no "projecto de vida em comum", a coisa de "gostar de outrém" sem assegurarem algo fundamental para qualquer projecto de vida: gostarem de si próprios. Quem gosta de si próprio antes mesmo de gostar de outrém não se desleixa. Não inventa tretas. Não fica com barriga de cerveja coberta com t-shirt do Continente e nódoas de cerveja. Não colecciona papos e mamas descaidas "porque fui mãe", rapidamente corrigidas se voltarem a entrar para o mercado.

Só gostando de nós podemos fazer feliz outro, seja num projecto de vida comum mais tradicional ou num projecto de vida mais modernaço com um, dois ou mais parceiros ou mesmo em sistema rotativo de substituição.

Obviamente falo do "meu Portugal" mas duvido que lá fora seja diferente. Lá fora também existem gordos e gordas por desleixo, mamas descaidas, gajos carrancudos e gajas mal comidas (no japão deve ser ainda pior que os gajos parece que têm a pila muito pequena e o artigo da sissi não foi lá publicado).

Faço só uma ressalva que me esqueci ao artigo original da princesa da gulodice que está a motivar todo este bate boca: ter filho(s) é provavelmente a coisa mais incrível que podemos fazer. E nem é preciso gostar de crianças. A nossa criança não é nunca como as outras, uma falácia que tem tanto de ridícula como de deliciosamente confortável e apaixonante. E ao contrário do que se possa sugerir, ter filhos não tem absolutamente nada a haver com ter de ter "projecto de vida em comum".

Em jeito de conclusão apenas uma saudação: se se divorciou com essas razõesfez aparentemente muito bem. Está certamente mais feliz, gosta de si e se gosta de si vai manter-se sempre uma interessante "cavala da índia", como diria um amigo meu madeirense, o que aos nossos olhos masculinos é digno de aplauso.


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