Domingo, 26 de Agosto de 2007
May we rest in peace...

Ter sucesso e ser feliz é uma combinação possível. Mas não em Portugal. Aqui neste jardim a arder, o quadro pode ser branco se tiver pontos negros, o céu pode ser azul se se vislumbrarem nuvens e um homem ou mulher podem ser bem sucedidos se tiverem uma doença de pele rara. Ou qualquer outro infortúnio que legitime e justifique os infortúnios dos outros. Em Portugal, alguém que reflicta e verbalize competência é um arrogante. Mas se passar a vida a queixar-se que a preguiça o assola leva uma palmadinha condescendente nas costas, como só sabem dar aqueles que estão de braços abertos à espera que os outros escorreguem. Nas mulheres então é hilário. Uma tipa que goste de se ver ao espelho e tenha o azar de o dizer é uma convencida de merda, ímpia que não merece viver. Mas se na autoscopia vier a lamúria o coro das velhas ecoará em uníssono e, obviamente, em concordância.

 

E depois dizem que Portugal é um país deprimido por causa da crise. Talvez. Da crise de generosidade. Parece que nesta ponta da Europa somos todos embutidos de uma invejazinha ranhosa, que aliena o sucesso e a felicidade - venham eles de onde vierem - e exulta o arranhão e a ferida. Podemos ter dinheiro desde que tenhamos uma saúde fraca ou alguém com quem partilhar a vida se os dobrões não nos pesarem no bolso. Aqui em Portugal, não se pode ter tudo. Só nos é permitido chegar onde quase todos os outros chegam. A lado nenhum.

 

PS. ocorreu.me escrever este post um dia depois da morte de Eduardo Prado Coelho. Em vida, não faltou quem lhe chamasse cabotino, sedutor barato, vendido, arrogante. Agora que morreu, era o maior intelectual da sua geração. É a isto que chamo autofagia.



publicado por sissi às 22:16 | link do post | comentar | adicionar aos favoritos

Comentários:
De tacci a 27 de Agosto de 2007 às 03:58
Claro que o Eduardo não foi nunca o «intelectual da geração», a menos que a geração tivesse sido demasiado pobre. Alguém, creio ter sido a Carmen Gonzalez, disse que o Eduardo sabia mais do que aquilo que compreendia. Foi uma frase cruel, mas, hélas, demasiado próxima da realidade para deixar de impressionar.
O Eduardo tinha a preocupação de tudo ler, de estar a par de tudo, o seu maior receio foi sempre o de não estar «in», o de ser apanhado «lá fora». Foi pena, porque um pouco mais de asa e era a Glória, um pouco mais de independência e era o génio.


De ZOT a 27 de Agosto de 2007 às 10:46
Grande Sissi, desceu à Praça e disse de sua justiça. Fez uma excelente analise da mentalidade que assola e que não deixa progredir o nosso pais.

Apesar de eu abominar Salazar, este concluiu brilhantemente que; um povo que descende duma mistura de Celtas, Godos, Barbaros, Mouros, Castelhanos, etc. so pode ser controlado com uma mão pesada e disciplinadora. Ele errou porque exagerou na maneira como aplicou a ideia, especialmente porque privou o povo de cultura e desenvolvimento. Hoje não haveria tanta inveja e mesquinhez, se tivessemos podido crescer ao lado dos paises com os quais, pretenciosamente, nos comparamos. Em Portugal, somos pequeninos e assim continuaremos, até aprendermos a respeitar as qualidades dos outros e a seguir os seus bons exemplos.

Quanto às reações à morte do EPC, ja se esperavam, as carpideiras até se pelam por estas oportunidades. Eu não chamo autofagia, eu chamo-lhes é uns grandes filhos da puta!


De penkas a 27 de Agosto de 2007 às 11:45
uhhhm que saudades
já não visitava este palácio há pelos menos uns meses, por motivos vários...
já me tinha esquecido que riqueza (espiritual e não só) estas linhas escondem.
Prometo não estar ausente tanto tempo novamente

Desde teu subdito( apesar da ausência..fiel)
penkas


De Catarina a 27 de Agosto de 2007 às 11:52
Concordo com tudo o que escreveste.

É triste vivermos num país onde a competência não é valorizada, tal como acharem que somos tudo e mais alguma coisa quando sabemos o que somos e o que valemos e o dissemos.

Enfim...

Mas as vezes também me questiono se não será assim lá fora, mas ainda não descobri a resposta.


De Sol a 27 de Agosto de 2007 às 12:07
Imperatriz.

Não sei se esse mal é só Português. Por aqui vejo muito do mesmo!

Já pensei inclusive que isso fosse característica comum ao gênero humano, mas , refletindo e já tendo andado por boa parte do mundo, concordo que não é assim.

Podemos sempre lembrar que nossa colonização foi Portuguesa...e daí herdamos a mesma característica.

Noto que não é uma característica latina, não acontece na Itália e na Espanha, por exemplo.

Mas, embora tenhamos do mesmo por aqui, noto que essa característica é exacerbada em solo lusitano... Me pergunto o por quê?

Beijinhos,


De jFp a 27 de Agosto de 2007 às 13:13
Já agora, o "por aqui", é em que país?


De Sol a 27 de Agosto de 2007 às 16:13
Brasil, uma vossa ex-colônia.



De jFp a 27 de Agosto de 2007 às 12:32
Pelo que percebo, estamos a tentar afundar-nos um pouco mais do que já estamos.
A minha consciência de nascer português, diz-me que temos história; cultura e valores, tão bons ou melhores que outros.
Nunca vivi no estrangeiro, mas não acredito nem nunca vou acreditar na boa vontade de todos os outros povos em só verem as coisas boas de cada um dos seus países, e fazerem disso um modo de vida.
Então pensemos em conjunto:
- Os Alemães não mancharam a história recente?
- Os Ingleses não foram às Malvinas dar cabo de uns pobres coitados que nem armas tinham para se defender?
- Os Americanos do Norte não governam o mundo a seu bel-prazer, e ditam as leis que bem lhes dá na gana no momento?
- Os Franceses não exterminaram milhares de compatriotas na sua revoluçãozinha?
- Os Russos idem?
É preciso mais exemplos de "bondade"?
Porque razão temos sempre que nos denegrir e exaltar o que os outros têm de bom?
Deixemo-nos desse provincianismo.
Nós somos tão bons ou melhores que os outros.
Já tivemos o nosso momento de glória planetário, quando partimos para descobrir o que ia para além do mar.
Somos é periféricos. Estamos é "mesmo"na cauda da Europa. Todos os outros, incluíndo a Espanha, estão perto uns dos outros(ex países de Leste incluídos).
Falta-nos + formação + produtividade + não sei quantas coisas.....
Mas temos massa cinzenta e corporal para ombrear com os outros.
Faltou-nos que o D. Afonso Henriques tivesse conquistado toda a península ibérica, ou então que estivesse quieto e que hoje fossemos espanhóis.





De asdrubaltudobem a 27 de Agosto de 2007 às 12:44
eu não tinha qualquer opinião formada sobre ele, lia os textos dele no público e pouco mais , umas vezes concordava outras não mas claro que achava que ele consegui descrever bem as ideias dele, gostava. mas isso que tu dizes é bem verdade, depois de batremos a bota somos os maiores até lá as invejas prevalecem e sóvale dizer mal.


De stout a 27 de Agosto de 2007 às 16:07
Muito boa caracterização humana. Humana e não exclusivamente portuguesa.
Acontece aqui e por aí fora. Assim como em Espanha, no Brasil e em diversos outros pontos da Europa.

Em Inglaterra, por exemplo, alguém que reflete e verbaliza competência - como o Mourinho - é um arrogante e prepotente, exactamente como acontecera no nosso "mesquinho" país.
O problema é geral e não particular, ou talvez nem seja problema mas sim característica inerente ao ser humano.
O cerne da questão passa bem longe daí...

Parece-me ainda que ao pegar-se precisamente nos "pontos fracos", incorre-se no mesmo erro que se atribui aos demais. É seguramente mais sensato levantar a cabeça e pegar em tanto de bom e tanto de positivo que por aqui não falta.

Quanto ao Eduardo P. Coelho acho que os que diziam mal continuam a achá-lo os que achavam bem passaram a dizê-lo. Até porque, de maneira geral - é uma característica comum do comum dos mortais - não se erguem estátuas nem se lhes atribui o nome a ruas e passeios, com o sujeito em vida e de boa saúde.

Cumprimentos.


De verde a 28 de Agosto de 2007 às 00:56
Também me parece que este problema não é exclusivamente lusitano.
Acontece que em país pequeno, distante de tudo e todos, e ainda por cima periférico, tem mais visibilidade.
Mas é horrível ser-se assim, nisso estou de acordo com a sissi.


De newgen a 28 de Agosto de 2007 às 13:02
conversas negativistas e de velhos do restelo não nos os levam a lado nenhum, nem criam valor para o país..
Por cá fazem-se coisas do mais avançado que há nível mundial!!! Ora vejam:

http://dn.sapo.pt/2007/08/28/economia/americanos_compram_tecnologica_chipi.html



De RRamalho a 28 de Agosto de 2007 às 15:49
Realmente, este post é queixume! É o queixume acerca do queixume! "Ai que só nos queixamos" - e isto não será também queixume? É ainda pior! Cheira a recalcamento!

Nós somos todos bons, mediante as condições que nos são dadas.

É simples. E este post é queixume... Nada mais do que queixume acerca do queixume, o que não deixa de ser queixume...


Comentar post

 
livro

livro
Sex Bomb - O terceiro livro Download gratuito

livro

livro

livro Correio da Princesa
jukebox
Jazzanova - No Use

videos



arquivos

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

subscrever rss

badge